resumos

Segue abaixo a programação do colóquio com os resumos da comunicação de cada participante:

A programação do Colóquio Um dia de fulgor é composta por quatro mesas-redondas e três sessões de comunicações, realizadas respectivamente no Auditório Macunaíma e na sala 403, ambos no Bloco B do Instituto de Letras da UFF. 

Mesas-Redondas | Auditório Macunaíma

| | 1ª Mesa-Redonda

Na casa do entresser

9:00 h: Jorge Fernandes da Silveira (UFRJ, CNPq): “Monstros e fantasmas nos mitos portugueses”

Partindo de um apontamento de Maria Gabriela Llansol de que “desde o desaparecimento de D. Sebastião, a costa portuguesa está imersa em nevoeiro”, esta comunicação tem o objetivo de investigar em seus textos como sujeitos míticos, históricos (Vasco da Gama, por exemplo) e literários (Camões e Pessoa, por exemplo) formam uma comunidade de figuras extraordinárias, que podem ser vistas como monstros ou fantasmas.

9:30 h: Luci Ruas (UFRJ): “Na arena do texto, o corpo a corpo com a leitura”

10:00 h: Lucia Castello Branco (UFMG, CNPq):“Maria Gabriela Llansol na Cas’a’screver”

Breve descrição do trabalho da “prática da letra”, que se faz na Cas´a´screver, em Belo Horizonte, a partir da articulação da literatura com a psicanálise e tendo a obra de Maria Gabriela Llansol não exatamente como objeto, mas principalmente como método.

10:30 h: Debate | Moderadora: Laura Padilha (UFF, CNPq)

| |  2ª Mesa-Redonda |  Auditório Macunaíma  

Corp’a’screver

11:00 h: Maria Carolina Fenati (Universidade Nova de Lisboa): “A terceira coisa que mete medo”

Este trabalho pretende pensar a noção de corp’a’screver a partir do fragmento d’O Livro das Comunidadades (1977) no qual ela é anunciada: “A terceira coisa que mete medo é um corp’a’screver. Só os que passam por lá, sabem o que isso é. E que isso justamente a ninguém interessa.”  A aposta é a de que essa noção aponta para a perda do sujeito na afirmação do gesto de escrita entendido como movimento de dissipação. Para tal, o trabalho desenhará um diálogo entre os textos de Maria Gabriela Llansol e a problemática que se desenvolve em alguns textos decisivos para esta temática, a saber: “A morte do autor”, de Roland Barthes, “O que é um autor?”, de Michael Foucault, “A voz narrativa”, de Maurice Blanchot e “O autor como gesto”, de Giorgio Agamben.

11:30 h: Maria de Lourdes Soares (UFRJ): “Um corpo de fulgor”

“Seremos incólumes se não separarmos o corpo e a alma”; “Ir buscar plenitude, é garantir a respiração harmónica e metódica do meu corpo nascido para perdurar”, escreve Maria Gabriela Llansol em Um falcão no punho (Lisboa: Rolim, 1985, pp. 141 e 145). A partir destas afirmações pretende-se refletir sobre o trabalho estético realizado pela escrita llansoliana sobre determinados nomes da cultura, tornados figuras no texto, bem como estabelecer possíveis relações entre “corp’a’screver” (forma ininterrupta em expansão), “corpo de afectos” (de inspiração spinosiana), “corpo nascido para perdurar” e a recorrente ideia de ressuscitação (supremo ato de amor).

12:00 h: Sônia Piteri (UNESP- São José do Rio Preto): “A escrita corporal em Llansol”

Tendo como foco os cadernos manuscritos de Maria Gabriela Llansol, que se encontram no Espaço Llansol, em Sintra (PT), visamos explorar parte desse conjunto ainda inédito e realizar uma reflexão analítica entrecruzando com livros publicados da escritora. Nessa busca, deter-nos-emos, fundamentalmente, na manifestação corporal da escrita de Llansol, escrita que se faz erótica na sua própria forma de construção ao se valer de determinados procedimentos que corporificam a linguagem, tornando-a ativa, uma linguagem que impera pela sua voluptuosidade, que se insinua nas frestas do tecido escritural, que se contorce em movimentos libidinosos, pervertendo olhares estabilizados.

12:30 h: Debate | Moderador: Silvio Renato Jorge (UFF, CNPq)

| |  3ª Mesa-Redonda | Auditório Macunaíma  

Os lugares de uma casa

15:00 h: Tatiana Pequeno (UFRJ): “Casas políticas, lugares do mundo”

A apresentação tratará de Maria Gabriela Llansol como autora de um projeto “de contra-sangue”, cujos cumprimentos reluzem para além de uma política puramente humana.

15:30 h: Vania Maria Baeta Andrade (PUC – Arcos/MG): De um quarto só: a letra e a transmissão em Maria Gabriela Llansol”

Partindo do conceito de “letra”, tal qual a Psicanálise (freudiana-lacaniana) o concebe; da noção de “biografema”, como Roland Barthes nos ensina; e do postulado “a pulsão da escrita”, conforme formulado por Maria Gabriela Llansol; este texto pretende dar testemunho dos efeitos da letra llansoliana, no âmbito de uma experiência de leitura/escrita, no contexto da clínica psicanalítica.

16:00 h: Maria Lúcia Wiltshire de Oliveira (UFF):  “Uma nova casa: cotidiano e dom poético em Maria Gabriela Llansol”

Com o objetivo de discutir as faces do projeto “etistético” de Maria Gabriela Llansol e sua relevância na atualidade, a comunicação parte das reflexões de Silvina Rodrigues Lopes (“não se trata de fazer mundos, mas de habitar, viver o discurso e a sua dinâmica como uma espécie de encantamento”), que não exclui, segundo Manuel Gusmão, alguma esperança em torno do mundo-texto “Llansol” (“alternativo à versão de mundo hoje dominante no mundo contemporâneo”) e que, para João Barrento, tem natureza “mais precisamente, ucrónica” como espaço de uma grafia da História e do Ser “ao encontro de um mundo em que a felicidade possa ser possível”. Tendo por base o conceito foucaultiano de heterotopia e o pensamento estético-político de Rancière, o trabalho aponta para alguns aspectos da textualidade llansoliana que na era da “modernidade líquida” (Bauman) nos reendereça para as possibilidades vibratogêneas da existência como uma nova casa onde se vive o aqui-agora do cotidiano pela redescoberta do dom poético.

16:30 h: Debate | Moderadora: Renata Flávia da Silva (UFF)

| | 4ª Mesa-Redonda | 17 horas 

Llansol e a casa européia

17:00 h: Luís Maffei (UFF): “A comunidade na infância”

Da sebe ao ser é obra em que o encontro entre Camões e Llansol encontra-se privilegiado. O texto llansoliano de 1988 guarda uma das mais arrojadas e fecundas (re)leituras de Camões: o Poeta, personificado em Comuns, o Pobre, ganha uma dimensão politicamente comunitária e eloquentemente infantil, sobretudo em virtude de uma formulação de gesto revolucionário cuja localização é futura – o devir é onde e quando o poema camoniano, entendido como metamorficamente morto por Llansol, poderá ser lido, e Da sebe ao ser é um dos futuros d’Os Lusíadas.

17:30 h: Maria Etelvina Santos (Espaço Llansol): “Os anos de peregrinação de Pessoa / Aossê”

Considerando Fernando Pessoa como a «autêntica figura explosiva da galáxia Ocidente», Maria Gabriela Llansol propõe-se escrever a continuação evolutiva do poeta, a sua sobrevida», oferecendo-lhe outro renome. Preferindo deslocá-lo de um reconhecimento pátrio para um estado jubiloso de conhecimento, levará o poeta, através da «afirmação positiva do corpo», a descobrir a sua bi-humanidade, como um primeiro passo para outras humanidades transformadoras. Embora tomando como referência toda a Obra de Llansol, a figura de Pessoa-Aossê será observada preferencialmente a partir dos dois volumes de Lisboaleipzig e de Um Falcão no Punho, bem como de material inédito do espólio.

18:00 h: João Barrento (Espaço Llansol e Univ. Nova de Lisboa):  “Um ritmo poético fugindo… – Hölderlin-Llansol-Hölder”

A cadeia Hölderlin-Llansol-Hölder indicia a assimilação e a metamorfose do poeta alemão no texto da autora portuguesa, onde ganha o nome, mais denso e mais simbólico, de Hölder. Hölderlin buscava já, para lá do subjectivismo romântico, o movimento essencial da respiração do ser na linguagem da poesia. E, por mediação da tragédia e da poesia gregas, chega à fórmula, claramente moderna, do «grau zero da expressão» (das Ausdruckslose), ou seja, da resistência à expressividade meramente emocional no discurso poético (o que não exclui deste a expressão do sublime). Llansol, por seu lado, põe em acção, na linguagem de uma prosa avessa à narrativa, ao derrame subjectivo e à psicologia (mas frequentemente escrita na primeira pessoa), uma forma de expressão «poética» (isto é: do texto enquanto artefacto vivo de linguagem) igualmente orientada para um «falar absoluto e sem sujeito» (Eduardo Lourenço) em que o eu se anula perante a força da imanência, ou se dissolve em múltiplas vozes do texto. A este modo discursivo muito particular chamou Llansol «poema-sem-eu» ou «drama-poesia». Tentarei esclarecer os conceitos-chave dos dois autores e seguir, em vários livros e inéditos de Maria Gabriela Llansol, e com referência à figura de Hölder/Hölderlin, o rasto desta problemática, para tentar perceber de que modo se reflecte a «fuga ao eu» no texto llansoliano, sempre com a poesia (e alguma prosa) de Hölderlin em pano de fundo.

18:30 h: Debate | Moderadora:  Dalva Calvão

Sessões de comunicações | sala 403

| |  1ª Sessão de comunicações

7:30 h: Arnaldo Delgado Sobrinho  (USP): “Um corp’a’screver para a restante vida”

“Quando o corpo e o espírito são dois amantes experimentados, surge a proporção escondida, sabem extrair de quase nada o ardor imenso de criar.” A voz de Maria Gabriela Llansol que nos chega de Um falcão no punho é tal uma pequena pedra arremessada nas águas: formam-se sucessivos círculos concêntricos – De que corpo se fala, de que espírito? O que é a proporção escondida que só surge de um afeto experimentado? O que é o nada de onde o afeto arranca a criação? Se escrever o texto com corpo e espírito afinados – a palavra é sintomática – é a maneira escolhida por Llansol para atingir esse fulgor da palavra, diremos: eis um corpo’a’screver por uma escritura afetiva. E mais além: um horizonte que pode ser compartilhado apenas por aqueles que entregam também seus corpos ao “prazer do texto” – “texto que modificou o corpo dos homens”.

7:50 h:  Beatriz Helena Souza da Cuz (UFF): “Conversando sobre um madrugador e um taxista”

Esta comunicação se detém sobre a relação entre os escritos de Maria Gabriela Llansol e Jorge de Sena, em cujas obras parecem compartilhar algumas posições quanto ao valor genesíaco do fazer literário, bem como do seu papel enquanto escritores neste campo de batalha que é a literatura. Aceitando ao chamado para homenagear aquela que, segundo Eduardo Prado Coelho é “um dos nomes centrais da literatura portuguesa contemporânea”, o recorte escolhido para a aproximação destes dois vastos e variados autores se dará através da condição de dois trabalhadores, a saber: Leonardo em Os pregos na erva, de Llansol e o taxista do poema “Lisboa 1971”, de Sena, à luz de preocupações marxistas quanto à vida no sistema capitalista, a partir da necessidade de olhar criticamente para as relações em sociedade, bem como calcada na esperança de que caminhemos para um futuro mais humano, democrático e pacífico.

8:10 h: Janaína Patrícia Rocha de Paula ( UFMG):  O anel da leitura: Amor sive legens

A partir do livro O ardente texto Joshua e O jogo da Liberdade da Alma, apresentamos o modo como Llansol define a leitura aproximando-se do conceito barthesiano de biografema. Llansol parece reunir na leitura focos que restam de uma vida, compondo com eles um método vivo de leitura. Eis, então, o método llansoliano ao lado da escrita de Teresa para avançar em direção a outro texto. Sabemos com Barthes que o biografema é o disperso, os estilhaços de lembrança, a erosão que só deixa da vida passada alguns vincos. É a passagem da grafia de uma vida, apoiada num sistema de escrita para a representação de uma língua, para o grafema dessa bios. Esse que a escreve a partir do ponto mínimo de fulgor inapreensível pelo estético.

8:30 h: Danielle de Paiva Lopes ( USP): “Diálogos possíveis entre Quase verdade e Amar um cão: modos de (re) pe(n)sar a infância”

De forma a não esgotar todas as possibilidades relacionais das autoras, mas ampliar a consciência de que ambas possuem muitos pontos em comum, cada uma a seu modo, buscamos mostrar o trabalho de Clarice Lispector e Maria Gabriela Llansol por uma nova forma de pe(n)sar uma linguagem viva, mutável. Dentre as características que as aproximam, estão a singularidade, o pacto que seus textos propõem ao leitor e o aprendizado pelas perguntas. Através dos bichos, atingem esse outro olhar, aproximando-o do ser-criança, para também, como ser em desenvolvimento, distanciar-se das imposturas normativas e castradoras. Em muitos momentos, Llansol e Clarice iluminam-se, podendo-se ler o texto de uma à luz do da outra. Isso revela como as duas obras estão muito próximas e quão rico é esse espaço ainda pouco explorado. No espaço da escrita, dialogam entre si no momento em que repensam a infância. Ao ativá-la, fazem com que ela também seja capaz de repartir o conhecimento entre os seres, através de um pacto que valoriza o afeto. Todos assumem, dessa forma, um compromisso, que desenvolve as potencialidades e torna-os seres em crescimento nesse espaço da leitura. Alguns teóricos são citados para embasar nosso estudo. Sobre Llansol, estudamos João Barrento e Eduardo Prado Coelho, entre outros. Já sobre Lispector, citamos em especial Olga de Sá e Nilson Dinis.

| | 2ª Sessão de comunicações

13:00 h: Nathalia Gonçalves Fernandes Pereira (UFF):” Ressuscitação de Vergílio Ferreira em Inquérito às Quatro Confidências, de Maria Gabriela Llansol”

Inquérito às Quatro Confidências, diário III de Maria Gabriela LLansol, corresponde ao trabalho realizado pela  autora para superar a perda de seu companheiro filosófico, Vergílio Ferreira, que morrera sem a chance de viver a existência de modo não-angustiado. Para vencer o sofrimento surgido da dor do luto, ela escreve de forma a fazer da escrita dupla páscoa: ressuscitação da vibração perdida dos existentes-não-reais e ressuscitação figural de seu amigo. A fim de enfrentar a morte, Maria Gabriela valer-se-á de uma interessante estratégia textual: voltar a cor ao olhar. O objetivo dessa comunicação será, portanto, elucidar aquilo que poderíamos chamar de uma técnica de ressuscitação de forma a mostrar como Llansol, “voltando a cor para seu olhar”, ressuscitará Vergílio de modo a transformá-lo no Mais Jovem.

13:20 h: João Alves Rocha Neto (UFMG): “Letra-clorofila: a paisagem como método em Maria Gabriela Llansol”

A partir da frase “clorofila, a primeira matéria do poema”, presente no livro Onde vais, Drama-Poesia?, de Maria Gabriela Llansol, este trabalho deseja  perseguir a noção de paisagem, desenvolvida pela autora ao longo de sua obra, como método de uma escrita que deseja fazer um furo na representação, de uma escrita que se encontra em um lugar onde “não há literatura. Só interessa saber em que real se entra e se há técnica adequada para abrir caminho a outro”, como nos diz Maria Gabriela Llansol. Para isso, trabalharei com a noção de “afetos”, extraída do filósofo Baruch de Spinoza, e  de “sexo de ler”e “sexo da paisagem”, ambas extraídas da obra de Llansol.

13:40 h: Aderaldo Ferreira de Souza Filho ( UFF):  “teria gostado de escrever romances / se o tempo não existisse”: considerações sobre o tempo e a narratividade em M.G.Llansol

Em determinado momento de O Jogo da Liberdade da Alma, Llansol se indaga sobre a possibilidade de enunciar sua relação com o tempo e a literatura da seguinte forma: “Como dizer-lhe (…) que teria gostado de escrever romances / se o tempo não existisse” . No estranhamento desta indagação e na busca de seu sentido, nosso trabalho propõe levantar algumas considerações acerca de dois temas que constituem uma linha de força na obra da autora: o tempo (“o devir como simultaneidade”, interpretação do eterno retorno) e a superação dos gêneros literários historicamente desenvolvidos. Para tanto, pontuaremos, no pensamento llansoliano acerca dos gêneros literários, alguns elementos em diálogo com a Poética de Aristóteles e O narrador de W. Benjamin.

| | 3ª Sessão de comunicações

19:00 h: Luisa Calmon Ferreira (UFF): “ A escrita fulgurante de Maria Gabriela Llansol emUm Falcão no Punho e Finita”

Apesar de nomeados como Diários, Um Falcão no Punho e Finita reafirmam uma das principais marcas da escrita de Maria Gabriela Llansol: a dificuldade de classificá-la dentro dos gêneros literários. No diário tradicional há a preocupação de dizer uma verdade sobre si  e de fazê-la conhecida pelo outro através do relato dos acontecimentos triviais do cotidiano. Não se constrói assim o Diário llansoniano: por não ser apenas  diário, mas também literatura, rompe com os paradigmas de apreensão do real da escrita diarística tradicional, aproximando-se  do conceito blanchotiano de narrativa. As figuras, as cenas fulgor e as imagens,  características da narrativa llansoniana, também estarão ali presentes como  partes indissociáveis de um projeto estético da autora. Elas  são  fonte de estranhamento para o leitor habituado à estrutura do romance tradicional do qual  participam o personagem – e não a figura -, o enredo  – e não a cena fulgor-  e a metáfora – rejeitada por Maria Gabriela Llansol em favor da imagem, talvez o elemento  mais recorrente na escrita fulgurante de Maria Gabriela Llansol que sempre conduz o leitor a uma experiência do inesperado.

19:20 h: Luiza Klein Cherém (UFF ): “Amar um cão: o eterno tempo da “relação de luz” em Maria Gabriela Llansol”

Amar um cão nos convida a entrar em um universo completamente diferente de todos que já vimos: a instigante obra de Maria Gabriela Llansol. Ao quebrar conceitos tradicionais e não se enquadrar em nenhum gênero literário, o texto da autora contemporânea nos faz retornar ao “pensamento de leite”, ao momento no qual não há conhecimento prévio de nada, mas apenas o desejo de conhecer o novo que tanto inquieta. Seu estilo de escrita ímpar oscila entre o drama e a poesia, ora sugerindo figuras, espaços e tempos – ainda que estes não tenham linearidade e não sejam reconhecidos facilmente –, ora fazendo um jogo com a distribuição prosaica e versificada do texto, além de construir sua linguagem de forma poética. Amar um cão  é  um terreno incerto em que a cada passo anulam-se fronteiras para que entendamos a incessante relação existente entre dois seres que crescem e se completam na medida em que combatem um ao outro. A minha proposta é a de refletir sobre a forma como é expresso no texto este elo infindável entre as duas almas instáveis e  o caminho que percorrem  a partir dos conceitos de escriptor (Barthes) e de  figura e legente (Llansol).

19:40 h: Mariana Neto Silva Andrade (UFF):  O “diário de escrita” llansoliano – Um falcão no punho

Em 1985, é publicado Um falcão no punho, obra com a qual Maria Gabriela Llansol debuta, e que também é, nas palavras de seu marido, Joaquim Augusto, o qual redige o posfácio do volume, um livro indiciador de seus prováveis caminhos posteriores de produção literária. De fato, ao observarmos o subsequente percurso autoral, verificamos que Llansol constrói, na junção de seus volumes, um todo coeso, não só devido à constante presença e aprofundamento de métodos e temáticas, mas também graças ao diálogo constante com figuras históricas e literárias sob cuja influência a escritora se encontra – como ocorre com Fernando Pessoa, o poeta lisboeta famoso por sua escrita heteronímica. Em texto posterior – Lisboaleipzig, de 1994 – Llansol promoverá um encontro inesperado entre Fernando Pessoa e Johann Sebastian Bach, o musicista barroco, na casa deste último, participando também da conjunção Anna Magdalena, esposa do organista, e Infausta, um suposto heterônimo feminino pessoano, subitamente dotada de vida e independente de seu criador. Entretanto, os primeiros vestígios da redação de tal confluência encontram-se no livro de estreia, o que nos permite, até certo ponto, entender Um falcão no punho como sendo, se não totalmente, ao menos em parte, um diário de escrita llansoliano e, por extensão, um elemento revelador tanto de sua proeficiência literária quanto de suas convicções teóricas acerca do processo de escritura. O objetivo do presente trabalho é fundamentar, tanto quanto possível, tal visão, procedendo também à análise do papel ocupado por Maria Gabriela Llansol enquanto entidade autoral, explícita ou não, em sua primeira obra.


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